Às vezes é uma bênção fazermo-nos de burros

Um dia, antes da Eucaristia, entrei na sacristia como quem entra num deserto santo.


Buscava silêncio, esse mestre exigente que não fala, mas revela. Queria encontrar dentro de mim o caminho para que, ao beijar o altar, o fizesse com verdade: um gesto pequeno, mas inteiro; humilde, como Pedro quando diz a Deus aquilo que Deus já sabe — “Tu sabes tudo, Tu sabes que Te amo.”

A manhã parecia repousar sobre mim com uma luz mansa, quando de repente uma voz irrompeu sem bater à porta:
O senhor é burro?
A frase cortou o ar como uma pedra atirada à água parada. Fiquei quieto. Não respondi. Apenas esperei que a razão aparecesse atrás daquele brusco julgamento.
Sim, o senhor é burro! — repetiu, com mais força, como quem martela um prego.
Senti o sangue ferver, uma chama que me empurrava a revidar, a defender-me.
Mas segurei-a. Respirei. E, com a calma que me restava, respondi:
Sim, sou burro… muitas vezes. Mas a que se deve o elogio, minha senhora?

Veio então a acusação: eu teria trocado os nomes das intenções de missa. Pôr mortos a mandar celebrar pelos vivos, assim disse ela, como se fosse uma heresia administrativa.
Calei-me de novo. O silêncio, outra vez.
Depois:
Peço-lhe desculpa. Vou ver o que aconteceu. Mas, por favor, traga-me a cópia das intenções que marcou.

Ela saiu ainda com faíscas no olhar. E eu fiquei ali com o eco da agressão dentro do peito, tentando perceber porque razão algumas pessoas chegam com pedras, como se a sacristia fosse um tribunal e não um lugar de encontro.

Dias passaram. E numa manhã, quando o sol ainda desenhava sombras compridas, a senhora voltou.
Desta vez vinha cabisbaixa, esmagada pela própria consciência.
O rosto, antes duro, estava agora marcado por uma vergonha sem disfarces, parecia alguém que pede
esmola, mas a esmola era perdão.

Eu acolhi aquele rosto.
Esperei que fosse ela a abrir a porta das palavras.
Bom dia, Senhor Abade.
Bom dia.
Peço desculpa por lhe ter chamado burro. Afinal… fui eu que me enganei.

Olhei-a com a serenidade com que se olha uma criança que tropeçou.
Todos nós nos enganamos. Vá em paz.

Ela sorriu, leve, e partiu. E naquela manhã aprendi, ou confirmei, que às vezes é uma bênção fazermo-nos de burros.

Porque reagir a tudo é que é verdadeira burrice. Quando respondemos a cada espinho, transformamo-nos em arbustos de espinho também. Quando mordemos todas as palavras que nos atiram, acabamos por encher a vida de vinagre.

A alma fica azeda, cansada, pesada. E o coração, que nasceu para amar, fica ocupado demais a defender-se para poder perdoar.

No silêncio daquela sacristia, depois de tudo, ficou apenas esta lição:
Nem toda acusação merece resposta, mas todo erro merece humildade.
Às vezes, o caminho para a verdade não é vencer a discussão, é guardar a paz.
E quem guarda a paz, guarda-se a si mesmo — e guarda Deus dentro de si.

Padre João Torres


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